A gente se acostuma a ver, na televisão e nos jornais, notícias sobre guerras, assaltos, mortes. A gente se acostuma com o fato de se tratar pessoas apenas como números, esquecendo-se de seu rosto, de seus sentimentos, de seus sonhos, de sua família. A gente se acostuma tanto com isso que passa a achar normal, sensibilizando-se com a dor por um curto espaço de tempo, porque, logo em breve, um novo fato vai ganhar as cenas.
A gente se acostuma à correria do dia a dia, passando a fazer tudo no modo automático, deixando de viver os momentos. A gente se acostuma a, ao final do dia, colocar a cabeça no travesseiro e desejar: "Queria mais dias pra viver e fazer tantas coisas que planejei e acabei deixando pelo caminho!". Por que, então, não fazemos o contrário? Deveríamos desejar mais vida nos nossos dias e não mais dias em nossas vidas.
A gente se acostuma a olhar o outro muito rápido, julgando-o e ficando com os nossos paradigmas. A gente se acostuma a dar "uma segunda chance", que não tem nada de chance, porque ela já vem com aquele "pé atrás", esperando só um deslize do outro pra querer fazer o mundo desabar.
A gente se acostuma a sorrir forçadamente. A gente se acostuma a ser individualista. A gente se acostuma a querer ser a mocinha da história, sempre colocando a responsabilidade dos nossos erros em alguém.
A gente se acostuma a deixar nossos sonhos pra depois. A gente se acostuma a achar que aquelas vontades antigas não são nada mais que bobagens da infância. A gente se acostuma a ser rígidos demais
com nós mesmos, não permitindo uma brechinha ao descanso e à fuga da rotina.
A gente se acostuma a tirar o brilho do dia, com a nossa cara fechada, nossa posição de sofrida, nosso mundo com inúmeros problemas. A gente se acostuma a esquecer o poder de um sorriso sincero. A gente se acostuma a fugir das nossas responsabilidades sociais.
A gente se acostumou a andar sozinho, a dar passos em falso, simplesmente, por não admitir a imensa vontade de segurar a mão, de segurar aquela mão. A gente se acostumou a achar que era bom sozinho.
A gente se acostumou a fazer dos momentos felizes quadros emoldurados cheios de pó, espalhados pela casa.
A gente se acostumou a deixar que a neve encubra a beleza da flor, que a cara ranzinza esconda a beleza do coração, que as palavras duras apaguem relações preciosas, que atos impulsivos no façam perder nossos amores.
Bem que poderíamos ter nos acostumado com o amor, a alegria, os sorrisos, as gentilezas, a sinceridade. Também poderíamos ter nos acostumado a abrir a porta; segurar a mão; compartilhar o guarda-chuva; ceder o lugar ao mais velho; oferecer ajuda àquela pessoa destrambelhada que acabou de derrubar tudo.

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